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Manejo de pasto na palma da mão


Fazenda do Paraná duplica produção de arrobas por hectare após adotar estratégia de monitoramento mensal das pastagens. 


Método de manejo da gerente de pasto dispensa medições por altura ou cálculo de massa forrageira com quadrado. 


    

Denis Cardoso 

Dizem que o caminho para o sucesso na atividade pecuária começa pela escolha de um bom gerente de fazenda. Seguindo essa premissa, melhor ainda seria se a propriedade pudesse também lançar mão de um sistema de gerenciamento focado unicamente em pastagens, dada a enorme importância do manejo correto das forrageiras, especialmente em grandes fazendas de gado de corte que trabalham com pecuária extensiva. Foi o que fez o pecuarista Elton Zafanelli, responsável pelas fazendas 3 Minas e Guaraúna, em Alto Paraíso, PR, dedicadas à cria, recria e engorda. 

Ele decidiu contratar, a partir de 2012, os serviços do zootecnista Josmar Almeida Junior, hoje sócio da empresa Gerente de Pasto, que conta com uma equipe de especialistas em pastagens, além de um sistema exclusivo de monitoramento das forragens por meio de software. Pouco antes de Josmar iniciar seu trabalho na 3 Minas/Guaraúna, Elton e seu pai, José Alfredo Silveira Bovo, ainda buscavam soluções para reverter os resultados negativos obtidos com a atividade pecuária, consequência de falhas operacionais em anos anteriores. 

Os proprietários resolveram, então, contratar o serviço de consultoria da Terra Desenvolvimento Agropecuário, que revelou alguns dos fatores que resultavam em prejuízos financeiros à época. No topo da lista, estava o problema de gestão inadequada das pastagens. “Confesso que relutei um pouco em gastar dinheiro com outra consultoria, mas a equipe da Terra insistiu e acabou convencendo a gente de que era realmente necessário chamar uma pessoa que trabalhasse exclusivamente com planejamento do pasto”, conta Elton. 

Ao pisar pela primeira nas duas fazendas, Josmar logo detectou o problema: em grande parte das áreas destinadas ao gado, os pastos estavam “passados”, com uma quantidade excessiva de talos, palhadas, sementeiras, e um baixíssimo índice de folhas. “Aos olhos dos donos, parecia haver muito capim, mas aos olhos dos bois era quase nada. Isso fazia com que eles andassem muito para comer pouco, comprometendo seriamente seu desempenho”, conta Josmar. A saída foi reunir a equipe de campo da 3 Minas/Guaraúna, com objetivo de coletar o máximo de informações sobre os dados das fazendas e, assim, começar a colocar em prática o até então inexistente “planejamento forrageiro”.


Divisor de águas 

Claro que, nos últimos 10 anos, outras estratégias adotadas pela propriedade – muitas delas sob orientação da equipe da Terra Desenvolvimento Agropecuário – também contribuíram para os avanços contínuos dos resultados produtivos e reprodutivos da fazenda, mas o trabalho liderado pela Gerente de Pasto representou um divisor de águas nos negócios, segundo Elton. “Passamos a conhecer minuciosamente todas as nossas áreas de pasto e o histórico de lotação de cada uma delas ao longo das estações do ano, permitindo um ganho significativo de eficiência no uso dos capins, além de um planejamento mais elaborado e seguro sobre a necessidade de reformas ou recuperação de pastagens via adubação e outros insumos de correção do solo”, destaca.

Os dados evolutivos da 3 Minas/Guaraúna realmente impressionam. Do ciclo 2010/2011 para o de 2019/2020, a taxa de lotação da fazenda saltou de 1,23 UA para 1,88 UA/ha, o que representou um aumento de 53%. No mesmo intervalo comparativo, o ganho médio diário global (GMDG) cresceu 29%, passando de 356 g para 458 g, enquanto a produção por hectare quase dobrou, indo de 6,5 para 12,9@, e a produção total saltou de 11.602 para 19.414@/ano, um acréscimo de 67%. O aperfeiçoamento do manejo das forragens permitiu reduzir a área efetiva de pastagens e investir mais no cultivo de soja e sorgo para silagem, além do arrendamento para produção de mandioca. Entre 2010/2011 e 2019/2020, a área total de pastagens da fazenda 3 Minas/Guaraúna caiu de 1.798 para 1.503 ha, uma retração de 16%. Em contrapartida, houve crescimento expressivo na quantidade de gado e no número de matrizes trabalhadas por estação de monta. Em relação ao rebanho, registrou-se avanço de 26% no período: de 2.678 cabeças, em 2010/2011, para 3.364, em 2019/2020. O número de matrizes saltou de 1.100 para 1.628 – um aumento de 48%. Com isso, o número de nascimentos de bezerros teve incremento de 25%, saltando de 749 para 1.016 animais. 

Além de Josmar, a Gerente de Pasto conta hoje com mais dois sócios especializados no assunto, os também zootecnistas Bruno Shigueo Iwamoto e Edmar Pauliqui Peluso. Os três consultores e sua equipe preconizam o uso do método indireto de manejo de pastagens. Dispensam, por exemplo, algumas ferramentas como o método do “quadrado”, que exige corte de amostras de capim, sua desidratação e pesagem para aferir o teor de matéria seca, visando posterior definicão da taxa de lotação. Também não usam “régua” para medição da altura de entrada e saída do gado dos piquetes, para estimar a velocidade de acúmulo diário de forragem e, consequentemente, a capacidade de suporte em cada pasto. “São avaliações com certa dificuldade operacional e, por isso, não têm alcance abrangente em grande parte das fazendas de pecuária de corte, ficando restrita a apenas 10%-20% de toda a área empastada”, afirma Iwamoto. Segundo ele, o método indireto adotado pela Gerente de Pasto é mais simples, de fácil execução, independentemente do tamanho da propriedade. “Trata-se de uma tecnologia que foca primeiramente em pessoas e processos. Seu bom andamento depende apenas do engajamento da equipe e do dono da propriedade”, destaca o consultor, acrescentando que, para o uso da ferramenta, “não há necessidade de se realizar grandes investimentos em infraestrutura, embora propriedades munidas de bebedouros, cercas e cochos possam obter melhores resultados, elevando, consequentemente, os ganhos financeiros. O primeiro passo é treinar a equipe da fazenda, como fez Josmar ao assumir o desafio de melhorar os índices de produção da 3 Minas/Guaraúna. Aprende-se, por exemplo, quais as consequências de um sub ou super pastejo para a planta, bem como a maneira correta de se coletar dados de campo por meio do aplicativo Gerente de Pasto. Esses dados são fundamentais para a rodagem do software da empresa. “No processo de capacitação da equipe da fazenda, procuramos fugir dos fisiologismos conceituais de manejo de pastagem, como chamar pastos baixos e/ ou raspados de marmitas e pastos em boas condições de rodízio”, exemplifica Iwamoto. Logo de início, a empresa atua na rotina da fazenda, apoiando a equipe de campo a determinar quais pastagens cada categoria animal deve ocupar. “Acreditamos que a maior produtividade é obtida por meio da sucessão de ciclos de pastejo bem executados ao longo da safra, que são baseados nas somatórias dos períodos de ocupação e descanso de uma determinada pastagem”, esclarece.  



Como funciona a metodologia Afinal, como funciona a metodologia proposta pela Gerente de Pasto? Imagine uma câmara de celular. Nela, a função “fotografar” representa o método direto de avaliação de pastagem e o modo “filmar” retrata o modelo indireto preconizado pela consultoria. O primeiro recurso permite aferir as condições de alguns pastos da fazenda em determinado momento (usando a régua e o quadrado), para estimar a capacidade momentânea de suporte da propriedade. Já o segundo consegue visualizar, com o apoio das informações estratégicas armazenadas mensalmente no software, um histórico real do comportamento de todas as áreas de pastagens da fazenda, durante um período anterior recente (últimos 30 dias, prazo adotado pela consultoria, que leva em conta as diferentes condições climáticas em cada mês do ano). Com isso, a fazenda passa a tomar decisões estratégicas com base em informações acumuladas, que permitem fazer projeções para os 30 dias seguintes. “É o que chamamos de taxa de lotação corrida, que nada mais é do que uma relação de causa (em determinado pasto nos últimos 30 dias) e efeito (condições quantitativa e qualitativa do pasto após os 30 dias de pastejo)”, explica Iwamoto. Segundo ele, o que realmente possibilita avaliar se o pasto está pronto ou não para receber determinada lotação é seu poder de rebrota, ou seja, sua capacidade de produzir folhas diariamente. “Com o uso da nossa ferramenta, fica fácil determinar a lotação animal mês após mês, em cada pasto da fazenda”, ressalta. Essa lotação tem de ser condizente com o poder de rebrota de cada área de pasto. “Se você decide aleatoriamente por uma lotação de 3 UAs, só que, historicamente, sabemos que essa área só suporta 1 UA, nos próximos 30 dias este pasto vai para o chão”, exemplifica. O mesmo quadro de ineficiência ocorre quando, também ao acaso, o pecuarista opta por colocar 1 UA numa determinada área de pastagem, mas, comprovadamente, sabe-se que o capim apresenta poder de rebrota para 3 UAs – em 30 dias, este pasto vai “passar”. 

Monitoramento dos pastos é fundamental para se projetar a oferta de forragem e a lotação.


Processo na prática 

Uma vez analisada e entendida a capacidade de suporte a cada 30 dias em função da taxa de lotação corrida, a equipe da fazenda determina a distribuição do pastejo por meio do software da empresa, de acordo com as condições específicas da propriedade e os conceitos aplicados da Gerente de Pasto. Monta-se, assim, um grande quebra-cabeça, determinando onde cada lote deve girar nos próximos 30 dias, sempre obedecendo à capacidade de suporte de cada pasto. “O interessante é que, no decorrer deste trabalho de monitoramento, as coisas começam a melhorar naturalmente; um manejo correto resulta em pasto mais perene, vigoroso, capaz de produzir uma grande quantidade de folhas”, relata Iwamoto. Segundo o consultor, os próprios funcionários se tornam capacitados para controlar as métricas de pastejo e tomar decisões sobre o manejo dos lotes. Mas, na prática, como descrever uma decisão acertada? Vejamos um exemplo. Por meio do relatório da fazenda, sabe-se que o pasto 10, em janeiro, trabalhou com lotação de 2 UAs/ha. No final de janeiro, com essa importante informação em mãos, a equipe de campo se desloca para a área e observa se o capim não “bateu”, tampouco “passou”, ou seja, conseguiu rebrotar satisfatoriamente com 2 UAs/ha. “Como, em fevereiro, as condições climáticas são semelhantes às de janeiro, toma-se a decisão correta de repetir a mesma lotação de 2 UAs/ha do mês anterior”, explica Iwamoto. Como já citado nesta reportagem, os números da 3 Minas/Guaraúna “mudaram de cor” a partir dos trabalhos de consultoria aplicados pela Terra Desenvolvimento Agropecuário e pela empresa Gerente de Pasto. De um prejuízo de R$ 214 por hectare em 2011/2012, a propriedade passou a registrar, em 2019/2020, um lucro líquido operacional de R$ 402,43/ha, de acordo com dados da consultoria Terra. “Diante dos bons resultados financeiros, passei a não ter mais dúvidas de que o trabalho de gestão exclusiva das pastagens proporciona melhorias no desempenho individual e na capacidade de suporte das pastagens”, destaca o pecuarista Elton.